Ele levou a nossa culpa
Isaías 53 é um dos capítulos mais lindos da Bíblia. Escrito cerca de 700 anos antes de Cristo, ele fala do Servo como se tudo já tivesse acontecido, porque revela o plano eterno de Deus: desprezado, ferido por causa da nossa rebeldia, esmagado pelos nossos pecados, levando sobre si a culpa de muitos e intercedendo pelos pecadores.
Quero fazer uma progressão com você: o pecado, a guerra entre as duas naturezas, a culpa que essa guerra produz e o perdão que o Senhor deixou disponível.
1. O que o pecado fez em nós
O pecado de Adão e Eva corrompeu todas as nossas faculdades. Nascemos em pecado, com o espírito morto, sem conexão com Deus.
- O corpo sofre a influência do pecado: doenças, falhas genéticas, predisposições.
- A mente e as emoções também: um dia nos sentimos vencedores, no outro queremos desistir de tudo.
- O pecado não tornou o homem o pior possível, mas lhe deu potencial para isso.
Precisamos ter clareza de até onde o pecado foi, sem negar a sua influência.
2. A guerra entre as duas naturezas
Quando cremos e passamos por uma verdadeira conversão, uma mudança na forma de pensar, Deus nos dá um espírito novo. A partir daí temos duas naturezas: o espírito vivo, santo diante de Deus, e a velha natureza, a carne, que pende para o pecado.
2.1 Por que a vida parece piorar depois da conversão
Muita gente sente mais problemas depois de conhecer Jesus. Antes não havia guerra: você fazia o que a velha natureza mandava. Agora o pecado quer uma coisa e o Espírito Santo quer outra. As guerras mais difíceis são as interiores, e quem as entende vence com mais facilidade as exteriores.
2.2 A alma é o campo de batalha
Essa guerra acontece na alma, sede da mente, das emoções e dos sentimentos. Por isso precisamos de discernimento, e ele vem da oração e da Palavra. Se algo contraria a Palavra, você já tem a resposta.
- A carne nunca vai mandar você orar, jejuar ou ofertar.
- A carne faz contabilidade e não pensa no outro.
- O Espírito às vezes manda fazer pelos outros o que você ainda não tem, como Abraão, que orou pela casa de Abimeleque enquanto a própria esposa era estéril (Gn 20:17).
O Espírito Santo fala dentro de você, na mesma mente onde surgem os desejos da carne.
2.3 E o diabo?
O diabo está fora de você. Ele não conhece seus pensamentos, não é onipotente nem onipresente. Mas conhece o comportamento humano e lança setas inflamadas que sempre apoiam a carne: "Não precisa de tanto esforço, aproveite". Por isso precisamos do escudo da fé e do capacete da salvação para o dia mau (Ef 6:13-17), quando a alma está debilitada.
3. A culpa que a guerra produz
Todo pecado gera culpa, e não fomos preparados para lidar com ela.
3.1 Terceirizar e esconder
Tentamos jogar a culpa em alguém: "fui criado assim", "foi por causa dela". A culpa traz vergonha, baixa o nosso semblante e atrapalha as relações com Deus e com as pessoas.
3.2 O sorriso esperando aprovação
Quando corrijo minha filha de cinco anos, ela abre um sorriso e espera que eu sorria de volta, porque sentiu a correção como rejeição. Para uma criança, isso é normal. O problema é passarmos a vida sorrindo para Deus, esperando um sorriso de volta para nos sentirmos aceitos.
Então transformamos cada bênção em aprovação. Os discípulos se espantaram quando Jesus disse que é difícil um rico entrar no Reino (Mt 19:23-25), porque viam dinheiro como sinal de aprovação. E, quando a bênção chega, a culpa não nos deixa desfrutar: compramos a casa e nos sentimos indignos porque o irmão não tem. Pessoas livres geram pessoas livres; pessoas culpadas geram culpados.
4. Jesus levou a nossa culpa
Muitos sabem que Jesus perdoa pecados, mas nunca pensaram que ele levou a culpa embora.
4.1 Não diminua o sacrifício de Cristo
Pedimos perdão hoje e amanhã pecamos de novo. E a culpa não sai. Mas em Isaías 53 não há condição. Jesus não vai morrer amanhã pelo pecado que você cometer: a cruz já disponibilizou o perdão e já levou a culpa. O salário do pecado é a morte (Rm 6:23), e Jesus morreu no seu lugar.
Isso não é licença para viver de qualquer jeito. A santificação é aproximar-se de Deus para desfrutar de quem ele é, não aquilo que garante a salvação. O que nos garante a filiação é o que Cristo fez.
4.2 Fale sinceramente com Deus
Na adolescência, eu ficava uma semana sem orar de vergonha dos meus pecados, depois voltava com tudo, e o ciclo se repetia. Que ciclo escravo. Precisamos contar a Deus os nossos pecados com sinceridade. Jesus chama: "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês" (Mt 11:28).
4.3 A culpa não leva a lugar nenhum
A mente religiosa gosta da culpa como um martírio para se sentir digna. Você deve ser responsável pelo que faz, mas carregar culpa só baixa a cabeça e bloqueia as relações. Existem vales em que Deus nos prova, mas muito do que sofremos não vem dele: vem da culpa que nos faz acreditar que não podemos ter uma vida, uma família ou um trabalho melhores.
Continuamos pecando porque a velha natureza ainda sofre a influência do pecado. Quando Jesus voltar, receberemos um corpo novo e essa guerra acabará. Até lá, guerreamos sabendo que ele arrancou a culpa. Isso é graça.
Conclusão
Paulo pergunta quem acusará os escolhidos de Deus. Ninguém, pois Deus nos declara justos. Quem nos condenará? Ninguém, pois Cristo morreu, ressuscitou e intercede por nós. Nada nos separa do seu amor, e somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou (Rm 8:33-37).
Que culpa você ainda está carregando, como se a cruz não tivesse sido suficiente para levá-la embora?