O caminho da sabedoria
Às vezes a gente não sabe que não sabe. Somos ignorantes a respeito da nossa própria falta de conhecimento. É como alguém que almoça e fica com um pedaço de alface no dente: se ninguém avisar, ele vai sorrir o dia inteiro sem perceber. Por isso precisamos buscar em Deus discernimento, não para saber tudo, mas para ter consciência do que ainda não sabemos.
Tiago nos mostra esse caminho em Tiago 1:2-8. Ele nos manda considerar motivo de grande alegria passar por provações, porque a fé provada produz perseverança, e a perseverança plenamente desenvolvida nos torna maduros e completos. E, se alguém precisar de sabedoria, deve pedir a Deus, que dá com generosidade, mas pedir com fé, sem a mente dividida.
1. Sabedoria é prática, não teoria
Tiago, irmão do Senhor Jesus, é um homem direto e prático. É ele quem diz: mostre-me a sua fé, e eu mostrarei a minha pelas obras (Tg 2:18). E é ele quem nos alerta a não sermos apenas ouvintes da Palavra, mas praticantes (Tg 1:22).
Isso muda a forma como entendemos a sabedoria:
- Conhecimento e informação não são sabedoria se não houver prática.
- Você só sabe de verdade aquilo que já praticou. O resto é teoria.
- Um erro só ensina a errar. Quem deixou uma empresa falir aprendeu a fazer uma empresa falir, não a fazê-la dar certo.
- Experiência também não é sabedoria. Por isso existe velho tolo: o tempo traz experiência, mas não garante sabedoria.
2. O primeiro passo: a prova
Temos a tendência de achar que toda provação é algo ruim. Mas, biblicamente, prova não é necessariamente dificuldade.
2.1 Deus também prova na abundância
Deus prova o nosso coração na escassez, mas também na riqueza, na fama e na bonança. E a prova da abundância costuma ser mais filtrante: na dificuldade, a humildade vem junto; quando tudo vai bem, aí sim a nossa humildade é testada. É mais fácil ser fiel no dízimo com pouco do que com muito.
Paulo diz que aprendeu a viver na fartura e na necessidade, e que tudo pode naquele que o fortalece (Fp 4:12-13).
2.2 Você não precisa esperar o pior
Quando tudo está bem, muitos ficam com medo, esperando alguma desgraça para "serem provados". Mas quem aplica a prova é o professor, não o aluno. Você já está sendo provado hoje, em várias áreas da sua vida. Deus não precisa causar o mal: Ele usa todas as circunstâncias, até as consequências dos nossos erros, para provar o nosso coração.
A prova vem para matar a nossa ignorância. Ela nos coloca diante de decisões e desafios que nem sabíamos que não sabíamos resolver.
3. O segundo passo: pedir a Deus com confiança
Diante da prova, quem tem o mínimo de humildade pede a Deus. E Tiago diz que Deus é generoso: Ele dá sabedoria sem repreender, sem jogar na nossa cara. É uma prova com consulta, e podemos consultar o próprio Professor.
3.1 Dúvida não é o problema
Na prova, teremos perguntas, e muitas ficarão sem resposta até olharmos para trás no futuro. Maria perguntou ao anjo como aquilo aconteceria, já que era virgem, mas não desconfiou da palavra de Deus (Lc 1:34).
O problema é a confiança dividida. É o que Elias confrontou no Monte Carmelo: até quando vocês vão ficar indecisos entre dois pensamentos? (1Rs 18:21).
3.2 Quando já temos a resposta que queremos
A confiança dividida muitas vezes nasce quando já decidimos o que queremos e saímos pedindo conselho até alguém dizer exatamente isso. Aí chamamos de "confirmação". Nosso coração é enganoso (Jr 17:9), e Paulo avisa que haveria quem buscasse mestres segundo os próprios desejos (2Tm 4:3). Quem pede assim, diz Tiago, não deve esperar receber coisa alguma do Senhor.
3.3 Pedir com a intenção certa
A sabedoria de Deus não pode ser instrumentalizada para o nosso benefício. Sansão usou o dom da força para os próprios interesses. Tiago diz que pedimos e não recebemos porque pedimos com más intenções (Tg 4:3).
- A sabedoria de Deus nos leva a fazer o que é certo, não necessariamente o que dá certo.
- Ela não é para fama, riqueza ou resultados, mas para maturidade.
- Quando amadurecemos, produzimos frutos, e quem come desses frutos são as pessoas ao nosso redor.
4. O terceiro passo: perseverança, não teimosia
Só existe perseverança quando a sabedoria vem do alto. Sem ela, o que existe é teimosia, obstinação, insensatez. Saul só precisava esperar Samuel, mas a ansiedade o levou a oferecer o holocausto sem autoridade, e ele perdeu o reino (1Sm 13).
Tiago também fala de uma sabedoria terrena, animal e demoníaca (Tg 3:15), a esperteza do mundo. E Paulo lembra que a sabedoria de Deus muitas vezes parece loucura para os homens (1Co 1:18-25).
Na prova, geralmente pedimos para sair da sala, e não para terminar a prova. Mas a prova que não termino é a prova que volta, até que o meu coração amadureça naquela área.
5. O destino: maturidade e inteireza
Tiago diz que a perseverança nos torna maduros e completos, sem que nada nos falte.
- Integridade não é ser certinho ou perfeito. É ser inteiro, como o leite integral.
- Ser íntegro é ser a mesma pessoa em todas as áreas, na abundância e na escassez, como Jó, que disse: o Senhor deu, o Senhor tirou (Jó 1:21).
- Não ter falta de nada não fala da conta bancária, mas da alma e da identidade.
Choramos pelo carro, pela casa e pelo emprego que não temos porque ainda não somos completos. Mas quem somos não depende do que temos, e sim do que Jesus disse a nosso respeito.
Conclusão
O caminho da sabedoria passa pela prova, pelo pedido sincero a um Deus generoso, pela perseverança e chega à maturidade e à inteireza. Como o salmista, podemos dizer: o Senhor é o meu pastor, nada me faltará (Sl 23:1).
Em qual prova você está hoje: está pedindo a Deus sabedoria para terminá-la ou apenas pedindo para sair da sala?