Neto GregórioNeto Gregório

Sem graça, sem gratidão

Muitas vezes buscamos dicas práticas para ser gratos. Elas são úteis, mas costumam nos tornar apenas educados. Dizer "obrigado" é educação, e todo crente deve ser o mais educado possível. A gratidão, porém, é mais profunda: ela tem uma raiz, e essa raiz é a graça do Senhor.

O texto base é 1 Coríntios 15:9-10. Paulo se diz o menor dos apóstolos, indigno de ser chamado apóstolo por ter perseguido a igreja. Ainda assim afirma que tudo o que é se deve à graça de Deus, que essa graça não foi inútil, e que trabalhou mais do que todos, embora não ele, mas a graça de Deus que estava com ele.

Jesus pregou o Reino e viveu a graça: Ele é a graça de Deus manifestada (Tt 2:11). Paulo viveu o Reino e pregou a graça. A partir desse texto quero mostrar cinco percepções sobre o que a graça faz em nós.

1. A graça revela a sua identidade

Quem você é em Deus é definido pelo quanto de graça você entende que recebeu.

1.1 A mulher pecadora e o fariseu

Jesus jantava na casa de Simão, o fariseu, quando uma mulher pecadora começou a chorar aos pés d'Ele, a ungi-los e enxugá-los com os cabelos (Lc 7:36-50). Simão pensou que, se Jesus fosse profeta, saberia quem O tocava. Jesus então contou a parábola dos dois devedores: um devia quinhentos denários, outro cinquenta, e ambos foram perdoados. Quem amaria mais? Aquele a quem mais foi perdoado.

Simão não lavou os pés de Jesus, não O beijou, não ungiu Sua cabeça. A mulher fez o máximo. Por quê? Porque ela tinha consciência do buraco sem fundo em que estava. O fariseu, em seu orgulho religioso, achava que não estava lá. Jesus saiu da casa de Simão e ele não recebeu graça alguma. A mulher recebeu tudo.

1.2 Quanto mais consciente da queda, mais agraciado

Paulo amadureceu nessa percepção: chegou a se chamar o principal dos pecadores. Quem acha que não tem problema não recebe a solução.

  • Não faça contabilidade de pecado comparando-se com os outros.
  • Todos estamos no mesmo poço da velha natureza.
  • Quem se acha menos pecador recebe menos graça, porque acha que precisa menos.

Um descrente que ouve o evangelho pela primeira vez pode receber mais da graça do que alguém com cinquenta anos de igreja que ainda pensa ter bondades para apresentar a Deus.

2. Você não merece nada: a graça te deu tudo

Quando você busca mérito, não encontra graça. O Reino de Deus não é meritocrático. Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Rm 3:23), e o salário do pecado é a morte (Rm 6:23). O que merecíamos era a morte.

Crescemos aprendendo a "fazer por merecer": come tudo e ganha a sobremesa. Levamos isso para a vida e até para a relação com Deus: "faz tanto tempo que não oro que nem mereço que Ele fale comigo".

Mas pense: a coisa mais importante da sua vida é a sua salvação. O que você fez para merecê-la? Nada. Então por que viver tentando merecer todo o resto?

A cultura do mérito também fere relacionamentos. Quem cresceu achando que precisa merecer amor passa a acreditar que não merece ser amado. O que cura isso é a compreensão da graça.

3. O presente é a graça, e ela alcança a vida inteira

A graça não diz respeito só à oração e à leitura da Bíblia. Ela está sobre o seu trabalho, a sua família, os seus planos. Deus quer dar coisas que nenhum esforço e nenhum merecimento alcançariam, mas muitas vezes bloqueamos isso porque queremos merecer, e o que recebêssemos viraria orgulho.

Os planos de Deus são maiores que os seus. Moisés disse que não sabia falar. Elias se escondeu na caverna. A graça às vezes constrange e contraria a nossa vontade.

Jesus perguntou: qual pai, se o filho pede pão, lhe dá uma pedra? (Mt 7:9-11). Deus não é mesquinho. Ele não prometeu riqueza a todos, mas é um bom Pai que quer dar boas coisas aos filhos. Ele trabalha com graça, não com mérito.

4. A resposta à graça é o esforço

Aqui a cabeça dá um nó: "se é graça, não preciso me esforçar". Mas Paulo diz que a graça não foi inútil porque ele trabalhou mais do que todos. Sem esforço, a graça se torna inútil.

4.1 Recompensa, não mérito

  • Há recompensa para o esforço: quem planta, colhe.
  • Mas não há mérito: às vezes você planta e as circunstâncias não deixam nascer.
  • A graça multiplica o seu esforço: você planta uma semente e Deus faz uma floresta.

4.2 Gratidão pelo que já foi recebido

O esforço é resposta à graça que você já recebeu, não à que ainda vai receber. Você não trabalha com motivos para ser grato, mas com verdades: Deus salvou você.

Davi recusou receber de graça o lugar e os bois para o sacrifício: não ofereceria ao Senhor algo que não lhe custasse nada (2 Sm 24:24). A fé sem obras é morta (Tg 2:17-18). A mulher pecadora gastou o perfume, abriu mão da própria dignidade e soltou os cabelos em público. A graça compreendida é a graça expressa com esforço.

5. A humildade é a compreensão correta da graça

Não dá para ser orgulhoso e grato. O orgulhoso é autossuficiente e acha que já tem o próprio merecimento. Paulo nos chama a ter a mesma atitude de Cristo Jesus (Fp 2:5), e Jesus disse: "Aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração" (Mt 11:29).

Quanto mais entendemos a graça, mais humildade desce ao coração, mais gratidão enche a alma e mais esforço o corpo terá para celebrar o que já recebemos.

Conclusão

A medida da sua gratidão é a medida da sua compreensão da graça. Quando você entende o que se tornou pela graça, o que realmente merecia e o presente que recebeu, você responde com esforço intenso e um coração profundamente grato.

Em que área da sua vida você ainda está tentando merecer aquilo que Deus quer dar pela graça?