Neto GregórioNeto Gregório

As três dimensões da maturidade cristã

"Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino" (1 Co 13:11). Paulo escreve isso no capítulo do amor, entre os capítulos 12 e 14, que tratam dos dons. Ele tinha dito que mostraria um caminho mais excelente (1 Co 12:31). E, para ensinar sobre o amor, ele fala de maturidade.

O capítulo termina com três coisas que permanecem: a fé, a esperança e o amor, e o maior deles é o amor (1 Co 13:13). Quando virmos Jesus face a face, a fé e a esperança estarão consumadas. Mas o amor continuará para sempre. Existe uma ligação profunda entre maturidade e amor.

1. Criança ou adulto

Na cultura hebraica não havia as fases que temos hoje, como pré-adolescente ou adolescente. Ou você era criança, ou era adulto. Por volta dos 13 anos, o menino judeu assumia as responsabilidades de um adulto. Paulo está dizendo: houve um tempo em que eu agia como criança, e agora ajo como homem.

1.1 Maturidade cristã não é só inteligência emocional

Inteligência emocional é útil, mas a maturidade que a Bíblia pede está muito acima da simples gestão das emoções. No Salmo 73, Asafe quase tropeçou ao ver a prosperidade dos ímpios. Às vezes o ímpio é educado, próspero e emocionalmente equilibrado, mas continua perdido. Ele precisa nascer de novo.

Nós, que nascemos de novo, buscamos outra coisa: chegar à unidade da fé e à estatura de Cristo (Ef 4:13). Isso é metanoia, transformação diária. É por isso que discipulamos uns aos outros.

O problema não é um adulto às vezes fazer coisa de criança. O problema é continuar pensando como criança e fugir da responsabilidade de ser adulto.

1.2 Pensar como filho ou como escravo

Jesus nos chamou a ser como crianças na inocência, não na ingenuidade. Biblicamente, há duas formas de pensar: como filho ou como escravo. A parábola do filho pródigo mostra isso.

O pecado traz escassez ao coração. Minhas filhas nunca passaram fome, mas pegam os pães de queijo da mesa correndo, como se fossem acabar. Essa mente de escassez aparece quando achamos que tudo vai acabar por causa da política, e também na religião: muita gente vive com mais medo do inferno do que desejo de ver Jesus.

Mas nós não dependemos de política. Nosso Pai é dono de tudo. O Senhor é o nosso pastor, e nada nos faltará (Sl 23:1). E a forma escrava de pensar é a mesma forma da criança.

2. Primeira dimensão: o falar (comportamento)

Paulo fala de três dimensões: falar, pensar e raciocinar. O falar é o comportamento, aquilo que todos veem. A boca fala do que o coração está cheio (Mt 12:34).

A criança quer deixar clara a sua vontade. Quando mandamos pedir desculpa, muitas vezes ela vai coagida, de cabeça baixa. Isso não é errado: criança precisa ter o comportamento corrigido e depois o raciocínio ensinado. O problema é quando o adulto continua criança.

O adulto quer deixar claro, com o seu comportamento, a vontade de Deus. Tiago nos ensina a dizer: se o Senhor quiser, faremos isto ou aquilo (Tg 4:15). Nosso comportamento não vem de um livro de regras, mas do desejo de mostrar a vontade do Pai.

Até o tolo, quando se cala, passa por sábio (Pv 17:28). A maior guerra do coração é crucificar o ego: já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim (Gl 2:20). Jesus sofreu calado porque essa era a vontade do Pai (Is 53:7, 10).

3. Segunda dimensão: o pensar (conteúdo)

O pensar é o conteúdo que ocupa a sua mente. A criança pensa no prazer. Tire o celular dela e veja a reação. Dê um doce e ela vira sua amiga. Ela é influenciada pelo que lhe dá prazer.

O adulto pensa no propósito. Isso não significa que o cristão não pode ter prazer. Foi Deus quem colocou a fome em você, e Ele prometeu a Israel uma terra que mana leite e mel. Mas o prazer que Deus dá está ligado a um propósito. Na Bíblia, a refeição era antes de tudo comunhão: Abraão serviu o Senhor em sua tenda, e os discípulos de Emaús reconheceram Jesus no partir do pão (Lc 24:30-31).

Muitas vezes Deus nos levará a lugares sem prazer nenhum, mas com muito propósito. Moisés, aos 80 anos, estava tranquilo no deserto quando a sarça ardente o chamou (Êx 3). Quando encontramos o propósito, encontramos também satisfação. Sobre Jesus está escrito que Ele veria o fruto do seu trabalho e ficaria satisfeito (Is 53:11).

4. Terceira dimensão: o raciocinar (forma de pensar)

O raciocínio é a sua forma de pensar. Não é mindset de coach: é metanoia, a renovação da mente (Rm 12:2).

A criança entra num ambiente pensando em quem vai servi-la. Se ninguém sorri para ela na igreja, sente-se rejeitada. Às vezes Deus vai deixar você sem abraço para tirar você dessa carência e fazer você crescer.

O adulto pensa como Cristo: como posso servir? Depois de ressuscitar, Jesus preparou peixe e pão na praia e esperou os discípulos (Jo 21:9). Ele não estava pensando em ser servido.

Repare na ordem: a criança é tratada de fora para dentro, do comportamento para o raciocínio. O adulto é tratado de dentro para fora, do raciocínio para o comportamento. Quando só ajustamos o comportamento sem mudar a forma de pensar, viramos fariseus: nos comportamos bem, mas continuamos gostando mais de ser servidos do que de servir.

Conclusão

Quem amadurece são os frutos, e quem come o fruto não é a árvore, são as pessoas. A maturidade não é para o seu benefício, mas para o benefício de quem está ao seu redor.

Maturidade não é salário, posição, experiência ou conquistas. Maturidade é o quanto você ama. Quanto mais alto Jesus ia, mais Ele se abaixava, porque já tinha a aprovação do Pai. Queremos ser mais espirituais para amar mais.

Em qual das três dimensões, o falar, o pensar ou o raciocinar, você ainda está agindo como criança, e quem ao seu redor está esperando um fruto maduro da sua vida?