Neto Gregório Neto Gregório

O descontente e o conformado têm o mesmo problema

O descontente e o conformado têm o mesmo problema
Foto de Andre Hunter na Unsplash

Existem duas pessoas que parecem opostas, mas sofrem do mesmo mal.

A primeira vive insatisfeita. Olha para o que tem e só enxerga o que falta. Corre atrás do próximo degrau, da próxima conquista, do próximo "quando eu tiver". A segunda parou de correr. Desistiu de querer, baixou as expectativas e chamou isso de paz.

Uma delas é o descontente. A outra é o conformado. E elas têm o mesmo problema: nenhuma das duas aprendeu a ser contente.

A Bíblia trata desse tema num lugar muito específico, e vale olhar com calma. Paulo, preso, escrevendo aos filipenses, faz uma afirmação que costuma ser citada fora de hora. Vamos colocá-la de volta no lugar certo.

O descontente e o conformado são o mesmo erro

Todo conformado é um descontente que desistiu. Todo descontente é um conformado que ainda não cansou.

Parece jogo de palavras, mas não é. O conformado um dia também quis. Ele só se cansou de não conseguir e decidiu que era mais fácil não desejar nada. O descontente, por sua vez, vai chegar ao mesmo lugar; é só uma questão de tempo até a frustração vencer.

Os dois mentem para si mesmos. O conformado finge que não quer. O descontente finge que vai bastar. Um esconde o desejo embaixo da resignação; o outro acredita que a próxima conquista finalmente vai encher o vazio.

E os dois erram pelo mesmo motivo: colocaram a paz na dependência das circunstâncias. Se as circunstâncias melhoram, o descontente respira. Se as circunstâncias não mudam, o conformado se acomoda. Em ambos os casos, quem manda na alma é o lado de fora.

O que Paulo realmente disse em Filipenses 4

Aqui está o trecho, no contexto: "Aprendi a viver contente em qualquer situação. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, seja tendo muito, seja passando necessidade" (Filipenses 4.11-12).

Repare em três coisas.

Primeiro, Paulo fala em aprender. O contentamento não nasceu pronto nele; foi processo. Ele não era naturalmente uma pessoa tranquila que a vida não incomodava. Ele aprendeu, e aprender pressupõe erro, tempo e treino.

Segundo, ele descreve os dois extremos: a falta e a fartura. E isso é o que normalmente esquecemos. Achamos que contentamento é uma lição para tempos difíceis, para quando falta. Paulo diz que a fartura também precisa ser administrada. Ter muito também é um teste, e muita gente que passou na prova da escassez reprova na prova da abundância.

Terceiro, ele chama isso de segredo. Não é uma técnica óbvia, não é positividade, não é apenas baixar as expectativas. É algo que precisa ser revelado e aprendido.

E é exatamente aqui que entra o versículo seguinte, o mais citado e o mais distorcido.

"Tudo posso" não é o que você pensa

"Tudo posso naquele que me fortalece" (Filipenses 4.13).

Essa frase virou legenda de foto de academia, frase de superação, motivação para passar na prova. Mas o "tudo" de Paulo tem um endereço muito concreto: o "tudo" é viver na falta e viver na fartura sem perder a paz.

Paulo não está dizendo que consegue qualquer coisa que imaginar. Ele está dizendo que consegue atravessar qualquer cenário sem que o cenário governe a sua alma. A força de Cristo não é o combustível dos seus sonhos; é o que o sustenta de pé quando o sonho se realiza e quando o sonho desaba.

Não é que Paulo tinha tudo o que gostaria. É que ele possuía algo que não o travava. A falta não o descontentava. A fartura não o acomodava. Havia nele uma estabilidade que não vinha do lado de fora.

A resposta não é querer menos nem ter mais

Se o descontente e o conformado têm o mesmo problema, então a solução também precisa servir para os dois. E a solução não é o meio-termo entre eles.

Não se trata de o descontente querer um pouco menos e o conformado querer um pouco mais até se encontrarem no meio. A resposta não está na quantidade do que você tem. A resposta é outra coisa inteira: ser contente.

Contentamento não é desistir do que falta, nem se fartar do que sobra. Contentamento é estar inteiro em Cristo, esteja a sua vida na falta ou na sobra.

Veja a diferença. O conformado tem uma paz que depende de não esperar nada. O descontente tem uma esperança que depende de tudo dar certo. O contentamento cristão tem uma paz que depende de Cristo, e por isso permanece de pé nos dois cenários. Não é uma paz frágil, que se quebra quando a circunstância muda. É uma paz ancorada em alguém que não muda.

Por isso o contentamento não torna você passivo. Paulo continuou trabalhando, sonhando, plantando igrejas, escrevendo cartas, fazendo planos, mesmo preso. Ser contente não é parar de buscar; é parar de depender. Você ainda corre, mas a sua paz não está na linha de chegada. Ela já está com você no caminho.

Onde a sua paz está hoje

A pergunta que fica não é se você quer muito ou pouco. É de onde vem a sua paz.

Se a sua tranquilidade sobe e desce junto com a sua conta bancária, com a sua agenda, com a aprovação dos outros, com a próxima conquista, então a sua paz está terceirizada. Você entregou o controle da sua alma para coisas que você não controla.

Cristo é o único que pode satisfazer a alma de verdade. Não porque ele resolve todas as suas circunstâncias, mas porque ele se torna a sua estabilidade independentemente delas. E essa é a única paz que sobrevive tanto ao dia da falta quanto ao dia da fartura.

Então faça as contas com sinceridade hoje: tire Cristo da equação e veja o que sobra da sua paz. Se sobra pouco, talvez você não esteja nem no lado do descontente nem no lado do conformado. Talvez você só ainda não tenha aprendido o segredo que Paulo aprendeu.

E a boa notícia é essa palavra: aprendeu. Se foi aprendido, pode ser aprendido de novo. Comece hoje, na situação exata em que você está, com falta ou com sobra, chegando mais perto da única fonte que não seca.