O novo é melhor!
No começo do seu ministério, Jesus chamou Levi, o cobrador de impostos, e ele o seguiu. Mateus preparou uma ceia em sua casa e convidou publicanos e pecadores. Enquanto todos comiam e se alegravam, os religiosos observavam ao redor, incomodados com aquela alegria. Então perguntaram: os discípulos de João e dos fariseus jejuam e oram, por que os seus vivem comendo e bebendo?
A resposta de Jesus está em Lucas 5:33-39, e ela vai muito além do jejum. Ela expõe a religiosidade que mora dentro de cada um de nós.
1. Uma resposta para a pergunta superficial
Jesus usa a imagem do casamento, que naquele tempo durava dias. Enquanto o noivo está presente, os convidados não jejuam: é tempo de celebrar. Quando o noivo for tirado, falando da sua morte, ressurreição e ascensão, então jejuarão.
Jesus não condena o jejum. Ele apenas responde a uma pergunta superficial. Mas, porque conhecia o coração deles, decide ir mais fundo.
2. O fariseu que mora em nós
Não pense que, por ser moderno, não usar terno ou não ter usos e costumes, você está livre da religiosidade. Também não é verdade que só quem está há muitos anos na igreja é religioso. Dentro de cada um de nós existe um fariseu querendo dar palpite, impor um rito e olhar para o outro com julgamento.
2.1 Religiosidade por dentro: a moralidade
Antes de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão não era um ser moral. Depois que comeu, se escondeu, teve medo e sentiu culpa. A religiosidade nasce aí: tentar parecer moralmente aceitável diante de Deus e das pessoas.
Por isso, quando repetimos um pecado, temos vergonha até de orar. Mas Jesus morreu justamente porque não temos moral para nos apresentar a Deus. Ele pagou a nossa culpa e abriu o caminho.
2.2 Religiosidade por fora: práticas e ritos
Por fora, o religioso precisa de práticas para ficar bem na foto: ir ao culto para cumprir tabela, ofertar só para se sentir aceito. E, como ninguém consegue ser um religioso perfeito, cada falha gera culpa.
A religiosidade trata Deus como patrão, não como Pai. Para um patrão, estaremos sempre devendo. Jesus nos ensinou a orar dizendo "Pai nosso".
2.3 Os estereótipos da religiosidade
Em 2023, num evento em São Paulo, fui com amigos à casa de um profeta. Cresci achando que profeta era o crente mais pobre da igreja. Esse morava numa mansão, era arquiteto, cozinhava como chef e conversava normalmente. Meus estereótipos foram caindo um a um. Depois do jantar, na sala, veio a presença de Deus, línguas e palavras proféticas, inclusive para mim.
Jesus estava me mostrando que pobreza ou riqueza não definem espiritualidade. A religiosidade cria estereótipos sobre o que é ser espiritual, bem-sucedido ou ter uma boa família, e precisamos ser confrontados e despidos deles.
3. A roupa nova: nossas práticas externas
Naquele tempo, ninguém cortava uma roupa nova inteira para remendar uma velha. O pano novo encolheria na primeira lavagem e o rasgo ficaria maior.
O evangelho da graça é essa roupa nova completa. Não dá para tirar um pedaço da graça para consertar a religiosidade. Você não precisa de uns consertinhos: precisa de roupa nova.
3.1 Princípios, não metodologias
Gostamos de rituais porque são previsíveis: "me diga o passo a passo e eu faço". Mas espiritualidade não é receita de academia nem dieta milagrosa. Jesus nos dá princípios: orar, ler a Palavra. Como fazer? Experimente, aprenda, mude.
Eu orava e depois lia a Bíblia. Um dia aprendi com outro irmão a ler primeiro, para ouvir Deus antes de falar com ele, e mudei. Se o plano de leitura travou em Números, não se condene: continue lendo, de outro jeito se for preciso. Os fariseus nunca entenderam os princípios de Deus (Mt 22:29).
4. O vinho novo: a expansão do coração
O vinho fermenta e expande o odre de couro. Depois de esticado, o odre resseca e endurece, e já não serve para vinho novo, porque arrebentaria.
O evangelho é vinho novo e expansivo. Deus derrama em você, você se expande até onde dá, e então precisa ser feito um odre novo. E isso não acontece uma vez só: o vinho de Jesus, a videira verdadeira (Jo 15:1), é ilimitado.
4.1 O vinho novo de Caná
Em João 2, num casamento, faltou vinho. Jesus mandou encher de água as talhas de pedra usadas na purificação ritual dos religiosos e transformou a água em vinho. Esse vinho não teve tempo de fermentar: era novo. E o mestre-sala disse que o melhor tinha ficado para o final.
Jesus usou a base da prática religiosa para revelar algo novo.
5. "O velho é melhor"
Jesus termina dizendo que quem bebe o vinho velho não quer o novo, porque diz: "O velho é melhor". Somos como crianças que recusam uma comida só porque tem algo verde, sem provar.
A religiosidade diz: "Eu já sei, já vivi, não mudo". E assim deixamos de experimentar o melhor de Deus para a nossa espiritualidade, casamento, trabalho e relações. Deus age de muitas formas, com uma sabedoria multiforme (Ef 3:10), e não cabe nos nossos recipientes. Por isso o cálice transborda (Sl 23:5), e Jesus prometeu beber o vinho novo conosco no Reino (Mt 26:29).
Conclusão
Jesus não tem problema em transformar água em vinho. Nossa dificuldade é aceitar ser odre novo e largar a roupa velha que já se veste sozinha. Prove o que Deus está fazendo: o novo é melhor.
Qual prática, estereótipo ou certeza religiosa está impedindo você de receber o vinho novo que Jesus quer derramar hoje?